Pôr-do-Sol em Aswan (arquivo pessoal)
07/07/2009 – TERÇA-FEIRA
Sentar na poltrona do corredor pode ser um alívio para aqueles que têm medo de altura. Pra mim, foi um verdadeiro suplício! Os sessenta minutos que separaram o vôo no Boeing 737-500 EgyptAir do Cairo para Aswan, foram muito desconfortáveis. No caso dos boeings, geralmente são dois passageiros que separam quem ficou sentado na poltrona do corredor da janela. Ou seja, na maior parte da viagem você não sabe o que está acontecendo. Pra mim, ficou provado que acompanhar a decolagem da “janelinha” não é apenas prazeroso, como uma condição para manter uma boa saúde. Neuroses, eu sei. Mas cada um tem as suas!
Eu reclamo, sempre que posso a respeito do serviço de bordo pobre que as companhias aéreas domésticas brasileiras estão se acostumando a nos oferecer. Só que neste trecho egípcio, o serviço de bordo foi ausente! E ainda havia separação de duas classes. A vantagem de voar na executiva era apenas uns cinco centímetros de espaço para as pernas a mais e um chá, servido antes do taxi.
Chegamos a Aswan às nove e meia da manhã. O sol já superava em aquecimento, o “sol de meio dia” que nós estamos acostumados. Seguimos para um rápido passeio pela represa. Criando o Lago Nasser, a represa de Aswan controlou desde que foi construída, a subida das águas do Nilo que causava às vezes, destruições por cheias exageradas e secas nas cheias breves.
Seguimos para um atracadouro (bem guarnecido de ambulantes) para embarcar numa lancha que nos levaria ao Templo de Ísis. O chamado “Templo de Philae” ficava antes, em uma ilha com o mesmo nome. No entanto, quando o Lago Nasser foi construído, ele seria submerso se não fosse feito um esforço em escala internacional a fim de salvar os templos que estariam ameaçados. Philae era um deles. Foi recortado em blocos e transportado para outra ilha próxima. Lá, foi remontado e hoje se apresenta como uma das construções mais bem conservadas do Egito. Data do período greco-romano e abrigou a última comunidade remanescente da antiga religião egípcia (Kemetismo) até meados do século VI, quando foram expulsos e perseguidos pelos cristãos.
É impressionante ver pilones e colunatas ainda sustentando boa parte de um passado majestoso, de beleza incomparável. Os pássaros transformam o templo em um recanto de tranqüilidade, mesmo com a quantidade de turistas em visitação.
Após o Templo de Ísis, fomos recepcionados por uma turba de ambulantes (Un dólar, un dólar! VINTE E CINCO “par” um dólar!). Só vai achar exagero quem não estava lá (Brasil?! BRASIL?! Kaká! Ronaldo!). A situação ia evoluindo de maneira tão dramática (Pictures and maps “en español!” Brasil?! BRASIL?! Kaká! Ronaldo! Robinho...) que começamos a correr até o ponto de encontro. Para a nossa desagradável (Um dólar! Um dólar!) surpresa (VINTE E CINCO...) o ônibus não estava lá. Olhamos para trás e nada podia ser feito... Fomos alcançados!
Era horário de almoço e a população de Aswan havia se recolhido nas casas e apartamentos. “Pelo menos eles sabem o calor que agüentam!” – Pensei aliviado. Para o nosso grupo, era hora de embarcar no cruzeiro Royal Mövenpick. A recepção incluiu toalhas umedecidas, sorvete (à ser cobrado) e um bom ar-condicionado!
Abrindo a porta da cabine, fiquei de frente com uma das melhores vistas que já tinha tido: o Nilo corria calmo logo ali, do outro lado do vidro de minha janela. Mais um momento em que tinha certeza de que meu sonho estava sendo realizado “de com força”! O almoço estava incluso na acomodação do cruzeiro, bem como o café da manhã e o jantar. Todas eram refeições “bááááárbaras”, como diria Vera.
Depois de um breve descanso, no final da tarde (aqueles que não dormiram) fomos fazer um passeio de feluca (barco típico de transporte e pesca no Nilo) ao longo da cidade de Aswan e a ilha de Elefantina. O passeio foi magnífico! A feluca se deslocava apenas com a força do vento, sem nenhum ronco de motor interferindo no canto dos pássaros e no som que ainda se mantém um tanto camponês nesta parte do país. A certa altura, nos mudamos para a lancha e contornamos Elefantina, uma ilha que tem construções tão antigas que datam do reinado de Kéops! Rose, uma campinense adorável tentou tirar algumas fotos, mas o sol não colaborou nem com ela, nem comigo.
De volta ao barco, só nos restava dormir um sono breve, já que as 2:30 da madrugada estaríamos de pé, para embarcar em três horas de viagem pelo deserto rumo à Abu Simbel.
08/07/2009 – QUARTA-FEIRA
Depois de dormir algumas horas, ainda era cedo para servirem café da manhã no barco. Porém, foram entregues "kits" com pães, pepinos e bananas - algo bem leve para uma viagem de ônibus veio à calhar, ninguém gostaria de manchar o passeio com um episódio indigesto. No final das contas, os kits ficaram intocados porque o pessoal ainda estava sonolento.
Esperamos o conjunto de carros se formar próximo a um dos postos militares e começamos a travessia no deserto ocidental rumo à Abu Simbel. Três horas de bônus para dormir, acordei quando o sol levantou no horizonte de aridez infinita do deserto egípcio. Mia conseguiu algumas fotos do espetáculo. Agora com apetite e sem sono, consegui aproveitar meu café da manhã.
Chegamos a uma cidadezinha próxima à falésias e montes de pedra. A paisagem era menos plana que pensei, o que indicava estarmos perto ao Lago Nasser. De fato, mais alguns minutos o ônibus parou junto à área turística. Banheiros, lanchonetes e claro, vendedores! O Egito investe peado no turismo, tudo era bem conservado e moderno.
Caminhamos um pouco para dar a volta nos montes em que foi gravada a fachada do templo principal de Ramsés II, então Abu Simbel apareceu aos poucos, no sol dourado que iluminava a grande fachada. Não faltaram exclamações. O templo é de tirar o fôlego. Ainda mais sabendo que, se não fosse pelo esforço de organizações internacionais, ele ficaria debaixo das águas do Lago Nasser! Foi cuidadosamente “recortado” e “colado” da mesma forma que fizeram com o Templo de Ísis. E agora víamos o resultado empolgante – um templo com mais de três mil anos extremamente bem conservado, dando seu testemunho de uma época magnífica.
"E porque deixaram a segunda estátua no chão, depois do terremoto que a derrubou?" Alguns me perguntaram isso. Pensei que mais de mil anos depois de construído, durante a dominação macedônica do Egito, os Ptolomeus pouco se importariam em reconstruir um templo faraônico tão pouco teriam a tecnologia necessária para remodelá-lo.
Apesar de insistirem para que os turistas não tirassem fotos no interior do templo, um ousado americano desrespeitou a regra. Resultado: Teve de apagar as fotos tiradas na frente de todos os outros visitantes. Confesso que senti uma ponta de satisfação. São monumentos que já estão arriscados a serem destruídos pelo tempo, não precisam de uma "mãozinha" da tecnologia atual para mandá-los de volta ao pó.
Imediatamente após a visitação, voltamos à Aswan pela rota no deserto - mais três horas de ônibus. Desta vez resistente a dormir em carros ou não, sucumbi ao sono. Ainda bem! Ao embarcarmos no barco, este zarpou pouco antes do meio-dia descendo o Nilo em direção ao nosso destino de final da tarde - o templo de Hórus e Sobek em Kom Ombo, alguns quilômetros ao norte. Chegamos no final da tarde.
As sete horas da tarde, com o sol ainda no horizonte saímos do barco para a visita do edifício construído na época ptolomaica (séculos IV ao I a.C) para ser o lar de dois deuses. Simétrico, uma parte era dedicada ao Deus-Falcão Hórus e a outra ao Deus-Crocodilo Sobek. Algumas múmias de crocodilo foram mesmo sepultadas neste templo das quais restam aqui apenas o fosso aonde eram guardadas. O que foi encontrado pelos estudiosos, foi levado aos museus.
Saindo do templo, resolvi comprar a vestimenta típica chamada "shilaba". Uma túnica feita de algodão que cobre seu corpo da altura dos ombros aos tornozelos. Arrependi de não ter conseguido barganhar uma sandália, viria a descobrir depois o quão ridículo fiquei com uma roupa tradicional e tênis!
09/07/2009 – QUINTA-FEIRA
Acordei com o barco navegando rumo à Edfu. Chegamos por volta do meio dia no último destino antes de atingirmos a capital do sul - Luxor. Em Edfu, o único passeio tratava-se do Templo de Hórus. Porém iriamos até o local num veículo nada convencional, ao menos para os padrões ocidentais - uma charrete. E por ironia, o condutor chamava-se Ali Baba! Alguns minutos de trânsito incluindo pedestres, animais de tração, de estimação, charretes e ainda por cima carros, chegamos ao templo.
Mesmo nos livros de história não previ entrada tão imponente. Os pilones são superados apenas pelos de Karnak em tamanho. Algumas estátuas de Hórus representado como falcão ainda podem ser admiradas nas entradas do templo. Ainda bem conservado, notei um fato curioso - alguns cartuchos aonde deveriam estar gravados nomes dos soberanos da época, os Ptolomeus, estavam vazios! Segundo Zizo, tratava-se de uma forma de protesto dos egípcios do sul, quanto à instabilidade do governo de Alexandria. Alguns Ptolomeus reinavam por três, cinco anos até serem destronados por seus irmãos e retornavam ao controle do país após um ou dois anos.
Apesar disto, a construção ostenta uma magnitude rara de ser vista atualmente.
Voltamos ao barco debaixo dos protestos dos condutores de charretes - nenhuma quantidade de gorjeta parecia ser suficiente para acalmar o ânimo deles! Então, saíamos de perto mesmo sendo vítimas de expressões de incredulidade - talvez até alguns xingamentos em árabe. Zizo nos alertara para que este tipo de aborrecimento aconteceria. Na segurança do Royal Mövenpick, zarpamos de Edfu às três horas da tarde. Achei uma boa oportunidade para experimentar a piscina e admirar a paisagem enquanto navegávamos Nilo abaixo.
Coberto de protetor solar fator 50 (nenhum fps a menos!), observei deslizarem as tamareiras que compõem grande parte da paisagem da planície fluvial, cedendo espaço no horizonte para as montanhas do desero ou as dunas de areia. Algumas aldeias, outros barcos em cruzeiro no sentido oposto e ainda por cima, ao passarmos por duas eclusas os negociantes! Realizavam as ofertas de toalhas jogando-as no convés enquanto o barco se aproximava da eclusa. Se o turista resolvia ficar com a toalha, eles jogavam uma sacola com pedras para colocar o dinheiro - claro, depois de muita barganha! Me diverti ao ver Rose e Solange negociando com um ousado mercador por alguns quilômetros ao longo do Nilo. Eles ainda vêm preparados - para acompanhar o percurso do barco, fazem uso de lambretas e circulam livremente (e perigosamente) nas eclusas.
A tarde estava terminando quando acostamos na cidade de Luxor. Tive a minha primeira vista do famoso Templo de Amón. Aprontei-me para acompanhar meus amigos em uma visita ao museu de Luxor. Vale destacar que, apesar de não estar inclusa no pacote a visita é mais compensadora que a do Museu do Cairo. As peças estão melhor expostas, com referências e nem por isso são menos famosas. Banquei um guia particular com o maior prazer nas duas horas que passamos lá dentro.
De volta ao barco, era hora de nos vestirmos para a festa egípcia. Depois do jantar, descemos à caráter ao salão de estar do Royal Mövenpick e encontramos o espaço praticamente vazio! Os americanos não ficaram nem meia hora e nós, brasileiros estávamos apenas começando a fazer nossa festa. Os egípcios à bordo foram excelentes companhias. Os garçons se transformaram em professores de dança. Em pouco tempo, formamos uma roda em que no centro, as moças já acostumadas à dança do ventre mostraram seus talentos enquanto os outros as rodeavam dançando e batendo palmas. Os brasileiros tomaram o controle em pouco tempo da animação à bordo. Não é atoa que os egípcios sorriem quando nos escutam dizendo que somos brasileiros. A animação e hospitalidade são nossos pontos em comum - definitivamente!
Uma hora da madrugada e nem sentia sono. Me juntei à Rodrigo, Alex e Mia no convés da piscina para uma "proza after". Porém, era melhor não estender. Às sete da manhã estaria de pé para conhecer as duas margens do lugar que, antigamente era a famosa cidade de Tebas - capital do império egípcio e domínio do Deus Amón-Rá.
10/07/2009 – SEXTA-FEIRA
Passava pouco mais de seis horas da manhã quando o sol nasceu na margem oriental de Luxor. Sentado no convés da piscina, eu e Vera admirávamos a paisagem e conversávamos sobre o quanto nos sentiamos privilegiados em estar ali. Praticamente a mesma vista deslumbrante foi captada pelos olhos de Ramsés II, Tutmósis III, Hatchepsut e outros governantes que admiro. Primeiro, tudo parece coberto de um azul claro e opaco. Então, o sol toca o cume que domina o Vale dos Reis. De forma piramidal talvez tenha sido esta a razão que os reis do chamado Novo Império escolheram o local como necrópole. Então a luz solar começa a se espalhar colina abaixo. Como um egípcio diria, Rá está novamente sobre a terra e a ordem universal não será quebrada - mais um dia na lista de milênios de civilização ao longo do Nilo.
O ônibus cruzou o rio pouco ao sul de Luxor, indo direto para o Vale dos Reis. Escavadas na rocha, as tumbas de dezenas de monarcas sobreviviam aos milênios num local árido, de difícil acesso e tão vigiado como na antiguidade. Os medjay (a guarda de elite faraônica - sim, aqueles que aparecem no filme "A múmia") foram substituídos na atualidade pelas forças policais. Na entrada, uma maquete com a localização de cada uma das tumbas descobertas dominava o salão principal.
Fomos conduzidos à entrada do vale por um carro e tivemos de nos desfazer das filmadoras antes de entrar. Somente fotos são permitidas da área externa. Dentro dos hipogeus, nem pensar! O ingresso permite a visita de três tumbas. Zizo nos informou que já estavam definidas as que visitaríamos - Ramsés IV, Ramsés VI e Ramsés IX. Acompanhei o grupo extremamente desapontado. Gostaria muito mais de ver outras! Estes três Ramsés são meros figurantes na história do Novo Império. Foram reis medíocres, incapazes de manter sob controle o clero de Amón - na época, mais forte que o poder central. Fizeram a decadência da monarquia faraônica e jogaram o país em um período de instabilidade do qual o Egito jamais se recuperaria. Acabei entrando nas tumbas, já que as de Sethi I e Ramsés II passavam por trabalhos de restauração. Se existe um momento que não gostei durante a viagem, foi sem dúvida este.
Saindo direto da aridez do Vale para um local não muito distinto - Deir El-Bahari, local aonde foram construídos três templos funerários: o de Mentuhotep II, rei que unificou o Egito no século XXI a.C e fundou o Médio Império; o do faraó-mulher Hatchepsut e do seu sucessor e enteado, Tutmósis III. Dos três, o que mais se conserva é o de Hatchepsut. Construído provavelmente em 1460 a.C, celebrou uma das maiores realizações do reinado deste personagem. Uma viagem à Terra de Punt (a região da Somália e Etiópia para os antigos egípcios). Nas paredes são representadas, dentre outras cenas o transporte de árvores inteiras de incenso nos barcos faraônicos enviados ao longínquo país. Mais uma lista de presentes e personalidades curiosas que acompanharam a viagem.
São duas sequencias de rampas até chegar ao topo do templo. Muitos se decepcionaram ao subir, debaixo do sol escaldante uns bons metros e encontrar apenas uma pequena fachada. Segundo Guilherme, Hatchepsut teve atenção especial na sua arquitetura aos cadeirantes construindo rampas. Nem mesmo as piadas deixaram a caminhada menos cansativa. Porém visitando os setores laterais do templo, pode-se encontrar ainda alto-relevos que conservam cores originais em representações belíssimas das divindades adoradas pela rainha-faraó e sua empreitada à Terra de Punt.
O último local de visita da margem ocidental foi a antiga fachada do templo funerário de Amenhotep III. Não existe mais templo algum e as únicas testemunhas são dois gigantes de pedra, sentados admirando o Nilo passar pelomenos nos últimos quatro mil anos. Conhecidos como "Os Colossos de Memnon, as estátuas de Amenhotep III estão bastante danificadas e mesmo assim impressionam qualquer visitante. Receberam este nome nada Egípcio devido ao ruído característico que emitiam conforme o vento passava por entre as pedras. Na época greco-romana, assimilaram este ruído ao lamento de Eos, mãe de Memnon - um rei etíope que ajudou o rei Príamo de Tróia na defesa da cidade até ser morto por Aquiles. Restaurado ainda na antiguidade, o colosso deixou de emitir o lamento ha séculos. Nem aos pés do grande Amenhotep, os ambulantes nos deixaram em paz!
Atravessamos o Nilo de barca que, segundo alguns mais parecia um bordel pela decoração nada discreta - cd's, faixas vermelhas, arranjos florais e motivos geométricos além das confortáveis almofadas. Aportando na margem oriental, bem em frente ao Templo de Luxor passamos à visita mais quente do dia. Edificado por Amenothep III e Ramsés II, o templo ainda resiste em boa parte da estrutura talvez ajudado por ter sido sepultado pela areia durante séculos. Algumas partes ainda foram depredadas pelos cristãos do primeiro milênio e outra parte central do templo desapareceu debaixo de uma mesquita.
Porém, a antiga festa que era realizada entre os dois maiores santuários do Egito antigo sobreviveu. A Festa de Opet, durava cerca de 70 dias nos quais a estátua coberta de Amón era levada em de Luxor para Karnak, encontrando sua esposa, a Deusa Mut. Durante o encontro dos Deuses, a população de Tebas festejava. Hoje, a procissão acontece pelas ruas da cidade de Luxor, carregando a imagem do fundador da mesquita construída no Templo de Luxor. Somente não deve durar tanto quanto a festa de Opet... Uma pena, pois os egípcios sabem muito bem dar uma festa! - Ainda guardava na memória a noitada anterior...
De volta ao Royal Mövenpick, almoçamos e descansamos o que pudemos. A tarde nem havia terminado quando atravessamos o pátio de entrada para o Templo de Karnak. Tinha notado na bilheteria, uma maquete impressionante mostrando como era o primeiro Estado Religioso do mundo.
Karnak sobrevivia autonomamente, somente os faraós ditavam as ordens aos sacerdotes do Deus do império (às vezes, a situação nem era tão hierárquica assim). Por diversas vezes na história houveram desacordos entre o poder dos altos sacerdotes e do rei. Ambos travavam negociações (e, para infelicidade do país - guerras). Esta autonomia foi um fator preponderante na queda da monarquia faraônica - uma vez que o sul se autoproclamou autônomo, tendo sob sede o Templo de Karnak e como governante, os sacerdotes de Amon.
A fachada está assimétrica, mas não é devido ao tempo. Karnak cresceu durante mil anos e ainda estava se expandindo quando os persas invadiram o Egito, em 532 a.C. Os novos governantes não quiseram patrocinar as obras dos antigos reis e deixaram a entrada inacabada. Sucessões de salas de pedra, corredores de colunatas, estátuas e obeliscos transformam Karnak no testemunho de que os antigos construtores foram bem-sucedidos no seu intento - fazer com que a morada dos Deuses resistisse ao tempo e atravesasse milênios. Mesmo em ruínas, a grandeza do domínio de Amon assusta e apaixona.
Terminamos a última visita dita "de antiguidade" e fomos levados à loja de essências. Zizo prometera a alguns que nos levaria para conhecer algo que os egípcios se orgulham de produzir - os mais exóticos aromas do oriente. O vendedor nos apresentou essências diversas. Algumas medicinais, outras com propriedades estimulantes (sim, sexualmente falando. Diziam para que as mulheres aplicassem massageando no "Alto" e no "Baixo Egito" enquanto outras serviam ao homem para aplicar no seu "obelisco"). Nos ofereceram um chá refrescante e massagem gratuita. Depois de um dia cheio de passeios, a idéia era simplesmente estupenda!
E o sol se pôs, pela última vez aos meus olhos na margem ocidental de Tebas (parece mais fácil se referir à Tebas do que à Luxor)...