Fonte: Arquivo Pessoal
Dia da prova.
"A prova"
Durante um bom tempo, o substantivo mais usado no curso de comissários. As variações incluinham "provinha da Anac" e simplesmente "Anac". Explico às pessoas que, é tal qual uma "O.A.B." para comissários de voo. A confirmação da capacidade técnica de um profissional que, passando nesta prova com 70% de aprovação em quatro matérias, estará apto à entregar seu currículo como candidato às vagas das empresas aéreas para comissários.
Assim como o vestibular está para o colegial, a prova da Anac está para a escola de comissários. As recomendações, provas, questões... Toda a preparação teórica é feita com o objetivo de que sejamos aprovados na prova da Agência Nacional de Aviação Civil.
Quando iríamos fazer essa prova. A dúvida que ninguém respondia mencionando a data exata, ao invés disso, partilhamos da resposta uniforme: "assim que meu nome sair no registro do site da Anac". E comigo não foi diferente. Numa madrugada de dezembro, enfim o registro figurou na tela do meu computador. Depois de três buscas terminando em nada, não me contive ao exclamar "Até que enfim!". Na mesma madrugada, imprimi o Guia de Recolhimento da União para as quatro matérias e o pagaria no dia seguinte. Segundo o protocolo, eu devia esperar 5 dias para que a transação fosse confirmada e os registros me concedessem a marcação da data de prova.
Combinei com três colegas de irmos no fim da semana seguinte ao aeroporto da Pampulha. Era uma sexta-feira ensolarada, dia 17 de dezembro. Desci do ônibus azul na praça Bagatelle exatamente um ano depois em que, do outro lado da rua, não conseguia controlar as lágrimas enquanto conversava com meu pai ao telefone dizendo que não suportava mais a idéia de me tornar piloto. Um ano depois que uma outra prova da Anac foi feita e eu, reprovado. E eu, reprovava de vez minha carreira de piloto comercial.
Não pude evitar que me viesse a recordação daquele dia. Agora, de humor renovado, seguia confiante em direção à sala que encerrara um caminho, agora solicitava seguir por outro. Não muito distante, mas com certeza mais amadurecido. Sentamos no terraço do aeroporto que ainda continua sendo aberto. O motor de dois ATR's rasgavam o silêncio do mirante vazio e imaginamos, observando a tripulação ir para as aeronaves se demoraríamos a seguir por aquele mesmo ritmo.
Primeiro meus colegas. Então eu marquei a minha data, acompanhando a vontade comum de fazer o teste em São Paulo e, decidida na gerência da Anac mesmo, a data de 12 de janeiro do ano seguinte. Ainda consegui me safar de uma matéria por ter o brevê de piloto privado!
Passados natal, ano-novo e de volta à Belo Horizonte, estudei uma média de duas horas por dia (não exatamente todo o dia), mas conforme o dia 12 ia chegando, uma sensação de ansiedade misturada com pânico foi tomando conta da minha sanidade e afugentando meu sono, apetite e principalmente, minha tranquilidade. Passagens compradas para às 6 horas da manhã, não consegui dormir nada do dia 10 para o dia 11. Então, me apossei de uma recomendação em que a química venceria o meu psicológico e "apaguei" cerca de 11 horas da manhã do dia 11.
Acordei às 9 da noite trocando o dia pela noite. Um tanto zonzo depois de 10 horas de sono quando na semana anterior dormir 6 horas seguidas era um caso raro, arrumei todos os documentos, currículos e meu paletó. Tentei me entreter na internet até o horário de sair de casa para o aeroporto. Check-in feito, encontrei com mais três amigos que fariam a prova no mesmo dia. Combinamos de chegar de manhã e estudar até a hora do almoço. Faríamos a prova às 13 da tarde.
Numa sala congelante pelo ar-condicionado, 20 computadores aguardavam os candidatos após o instrutor dizer: "Podem escolher qualquer uma das máquinas". Sentei e imediatamente senti as palmas das mãos frias e suadas. Esfreguei-as pensando que tudo que eu poderia fazer até ali, tirando ficar calmo já estava feito. O computador iniciou o sistema de provas automaticamente, preenchi meu número de inscrição e, aguardando a ordem do instrutor, a prova começou às 13:30 da tarde.
Na primeira questão eu já me desesperei. "Como virar um bote numa sobrevivência no mar?" Eu buscava todas as maneiras possíveis de ligar a pergunta com o que falou-se em sala de aula, com o que li nas apostilas, sem sucesso. Todas as alternativas pareciam absurdas e confusas. Parti para a segunda questão. Sem melhoria. "Que parte da casca você usa para fazer farinha?" Diabos! Nunca aprendi a fazer farinha nos exercícios de sobrevivência! Entrei em pânico e pensei que realmente não seria dessa vez que passaria na prova da Anac. Assim, me rendi a fazer o melhor que podia nas questões subsequentes.
Porém, apenas as duas perguntas iniciais me soaram absurdas. As seguintes se mostraram bem mais adequadas ao que tinha estudado até então. Voltei diversas vezes nas que me deixaram mais em dúvida, fiz o que todos aconselhariam errado - substituí alternativas, movido mais pela esperança que pela certeza. E ao clicar em "encerrar a prova" senti meu coração subir pela garganta. Uma janela abriu destacando o seguinte: "Tem certeza de que terminou sua prova?" Com o coração agora na boca, cliquei em "sim" e esperei. Foram os 3 segundos mais longos da minha vida. Mais longos que os que você aguarda o Turbo Drop despencar você de uma altura de 60 metros. E então, li nas letras vermelhas e em caixa alta "APROVADO".
Expirei e não emiti um som além desse. Peguei minha mochila e saí da sala de provas. Ao chegar na recepção, dois amigos me olharam como quem aguarda notícias de uma cirurgia de risco num hospital. Então eu sorri. E recebi seus sorrisos de volta. Finalmente pude sentir um pouco de calor corporal percorrer meu coração disparado e minhas mãos frias e trêmulas.
Porém, a alegria não foi completa. Dos 5 ex-alunos da Esaer, dois não passaram naquele dia.
Com a ajuda de Maria, uma grande amiga que mora em São Paulo, fui com meus amigos à academia da Tam, entregar nossos currículos e vestidos à caráter. A recepção foi fria e intimidadora. O prédio do CTA apareceu à mim pela primeira vez altivo, entre as árvores da rua Ápia, cercado de treinandos trajando o uniforme de trabalho das suas funções. Agentes de aeroporto e comissários nos olhavam enquanto chegamos próximos do portão. O segurança - como é de praxe entre eles - com cara de poucos amigos nos abordou com um seco "boa tarde". Respondemos que pretendíamos deixar nossos currículos. Ele cerrou os olhos e percorreu cada centímetro de altura que tínhamos com um olhar céptico, quase agressivo. No fim, abriu o portão e nos deixou entrar. Ao que respondemos "muito obrigado".
Pisava pela primeira vez no meu sonho. Agora real, o chão do Centro de Treinamento da TAM linhas aéreas não era muito acolhedor enquanto ainda éramos vítimas dos olhares inquisitivos dos treinandos. Seguimos à recepção e fomos saudados com um sorridente "boa tarde" de uma moça simpática. "Viemos entregar nossos currículos para o RH". Imediatamente a moça deixou de ser simpática e fez cara séria: - Não recebemos currículos de papel. Vocês podem se cadastrar pelo site. "Mas teria algum lugar onde poderíamos deixar?" Um "não" simples foi a resposta. Nada tínhamos mais à dizer à não ser "obrigado".
Ao cruzar o portão e agradecer novamente o segurança, uma treinanda nos abordou perguntando de estávamos lá para deixar currículos. Dissemos que sim, ao que ela aconselhou: "Por aqui eles não pegam currículos, mas vocês podem enviar para este site." Perguntamos sobre o treinamento e agradecemos muito pela ajuda que ela nos prestou, de maneira tão altruísta. No fim daquele dia, eu havia decidido que até aquele momento, tudo estava correndo tão depressa que eu não conseguia pensar direito no próximo passo.
Decretei férias. Até o carnaval meu currículo ficaria nas minhas mãos. Depois de dois meses de idéias trabalhadas, pensamentos realistas, menos idealizações... Só então eu enfrentaria as seleções. E decidi tambem que, antes de qualquer seleção, a primeira tentativa seria o meu objetivo tão sonhado. Por enquanto tem sido assim...
Abraço pra você!
Voltei à Belo Horizonte à noite.